
carlos (13 anos) e steve (11 anos)* - ladeira da memória
Já fazia um tempo que eu estava pra marcar essa foto de hoje. A Vira de outubro vai ter uma matéria de capa falando sobre afetividade entre menores em situação de rua. É um tema muito interessante e até acho que nunca vi antes abordado em revista ou jornal nenhum. A reportagem já está escrita e muito bem feita. Os meninos que a escreveram se basearam em entrevistas que fizeram com menores que freqüentam o Cedeca da Sé (Centro_de_Defesa_dos_Direitos_da_Criança_e_do_Adolescente), que fica próximo da Estação da Luz. Os personagens da matéria quase todos moram embaixo daquele viaduto que fica no final da Paulista, que dá pro túnel da Av. Rebouças.
E me chamaram pra fazer as fotos da matéria. Depois dela escrita, lógico. Muito melhor seria se eu tivesse acompanhado os repórteres durante a apuração, mas... fazer o quê? Já estava pronta. E eu imaginei que seria ótimo se eu pudesse fazer as fotos embaixo do tal viaduto, com aqueles grafites de fundo... Mas antes teríamos que negociar com os meninos, o que não parecia ser tarefa simples, pois eles não necessariamente estariam no Cedeca no dia que conseguíssemos aparecer por lá. E esses planos ficaram longe de serem concretizados...
E lá fomos nós hoje, eu e outro repórter_da_Viração, acompanhar um dia com os meninos no Cedeca. Só que chegamos lá e a Casa_20, local onde os educadores do Cedeca desenvolvem atividades com os jovens e crianças em situação de rua, estava sendo reformada, de modo que os educadores estavam atuando na rua com suas atividades.
O que importa foi que saímos à procura de menores em situação de rua e a tarefa acabou numa longa caminhada: fomos da Estação da Luz até o Vale do Anhangabaú a pé, com as devidas paradas pelo meio do caminho, abordando um ou outro menino. E os educadores conheciam vários dos meninos por seus nomes e histórias. Vimos dois ou três que eles conheciam na Praça Júlio Prestes. Um deles dormia no chão de bruços, vestindo uma camiseta branca rasgada de modo que se via suas costas todinha. Ao lado do menino, dormia seu cachorro. Os dois estavam bem em frente à entrada da estação de trem.
Seguimos em frente e encontramos mais dois garotos no farol da Rio Branco com a Duque de Caxias. Eles faziam malabares no farol e pediam trocados para os motoristas dos carros. Um dos educadores nos contou que um dos garotos antes era gordinho. Hoje estava magro por causa do crack.
Não foi muito fácil manter diálogo com os meninos, pois eles estavam trabalhando e nós, só atrapalhando. Seguimos nosso passo.

fumando cigarro na Xavier de Toledo
Chegando na Ladeira da Memória, os educadores reconheceram mais alguns garotos que estavam por lá passando o tempo. Eram três meninos. Felizmente, o que conhecia os educadores estava só de boa, tranqüilo. Os outros dois cheiravam cola. O menor deles ainda escondia uma faca (que depois vimos que era enorme) dentro da manga de seu moletom. Estavam elétricos.
Dali a pouco, estávamos rodeados de meninos e consegui puxar uma dupla de amigos. Foi um difícil contê-los. Esses meninos que vivem na rua são muito cheios de malícia, muito espertos e vão pra cima de você pedindo coisas e se comportando de maneira invasiva. Os dois começaram a me beijar (!!) e me pedir dinheiro. Tentei manter tudo na base do diálogo, explicando meu intuito. Expliquei que era jornalista, assim como meu colega, dei-lhes um exemplar_da_Viração e perguntei se eles topavam fazer fotos para uma matéria que ia sair na revista sobre amizade entre meninos que estavam em situação de rua. Ainda bem que estou com a digital. Disse-lhes que o rosto deles não ia aparecer e que podia provar a eles que não ia mesmo. Acabaram topando. Foi até fácil fazê-los brincarem entre si de modo que eu pudesse fotografar à vontade... Mas eles são espertos, como já disse, e me deixaram em várias saias justas.
- tia, quer dizer que eu vou sair na revista? Quer dizer que eu vou ser famoso? Quer dizer que todo mundo vai me ver? Quer dizer que vão me adotar?
O menor deles queria saber porque o rosto dele não podia aparecer... e depois de se divertir com o fato de ser famoso, disse que não queria mais fotos...
- tia, o que eu vou ganhar com isso?
Escrito por
Maíra
às
01h39
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