noite de lua cheia
Seguindo os conselhos do Julio, meu professor de ioga, esse ano não fiz nenhum pedido durante a virada do ano. Ele fez questão de avisar a todos os alunos da escola que na noite de final de ano, estaríamos regidos pela lua minguante e que não se deve pedir nada durante essa lua, pois os planos minguam. Bom mesmo são os pedidos de fechamento, como encerrar aquela relação que não está mais dando certo, que já deu o que tinha que dar.
Em Santo André, na Bahia, lugar maravilhoso onde passei a virada de ano (depois conto mais sobre esse paraíso), conversei com alguns nativos e moradores da região sobre as recomendações sobre a lua. Pois foi um argentino que me explicou que é comum entre os nativos de Santo André pular as sete ondas e pedir para que Iemanjá leve tudo que não nos serve mais embora. Achei que o costume casava perfeitamente com meu ano, com meu momento de vida, com meu espírito.
E foi o que fiz. Conversei com Iemanjá e pedi que ela levasse embora tudo que não me servia mais, hábitos que me impedem de desabrochar, medos e inseguranças bestas, relacionamentos que não acrescentam em nada. Pedi para que eu pudesse aprender com esses fechamentos, que aceitasse que algumas coisas não estavam dando certo porque não eram para mim. Assim meu caminho ficaria livre para eu direcionar minha energia para o que importa, o que vier para me ajudar a traçar meu caminho, a encontrar a mim mesma.
Ontem foi a noite da primeira lua cheia do ano e aceitei o convite do meu professor de ioga para um ritual de mandalas que ele promoveu na escola. Cada pessoa precisava levar dois quilos de alimento, que seriam doados para uma instituição de crianças carentes. A festa estava aberta para outros convidados e aproveitei para levar a Bel. Nós todos recebemos uma mandala e a pintamos. Cada mandala trazia uma mensagem. A minha era: “Mesmo que eu caia sete vezes, levantarei oito”. No começo, estranhei a frase, porém aos poucos fui me identificando com ela e entendendo o que representava para mim. Enquanto pintávamos a mandala, visualizamos nossos pedidos para o ano de 2008. Foram longos minutos e muitas imagens que vieram em minha cabeça. Nada de “eu gostaria disso ou daquilo”, a idéia era afirmar sempre no presente: “eu quero”, “eu vou” etc. E somente coisas boas, pensamentos positivos.
Julio explicou que a lua cheia é conhecida como a fase das realizações e dos transbordamentos. Pode ser muito difícil manter o equilíbrio de emoções nesse período do mês, mas ele tem uma enorme força quanto aos pedidos. Ele até nos alertou em tomar cuidado com o que pedíamos e como pedíamos. Desejos muito abertos podem nos trapacear depois. Ele contou o caso de uma aluna que, numa outra festa dessas, contou a ele que pediu muitos namorados: “ela arranjou um monte de namorados, mas era um mais complicado que o outro”. Portanto, descreva bem o que você quer e como você quer, dizia ele. Depois de pintarmos nossa mandala, escrevemos nossos pedidos no verso. Usei várias cores, cada um para um “tema”. Como não havia “limite de caracteres”, escrevi muito, de forma que 2008 promete.
Quando nos demos satisfeitos com nossa mandala e nossos pedidos, foi a vez de desenharmos e escrevermos, num grande painel que estava colado na parede, nossos desejos para o mundo. Estávamos com mais de 50 pessoas na sala e todos fizeram votos por um mundo melhor.
Depois disso, foi o momento de nos sentarmos em círculo e cantarmos vários mantras. Visualizamos um anel de proteção com pétalas de rosas em nosso entorno e respiramos em conjunto, como se fôssemos o pulmão do mundo. É incrível como podemos nos sentir fortes e unidos em momentos como esses. Os mantras, quando cantados em grupo, têm um som intenso e bonito.
O que eu mais gostei é que ao final de tudo, queimamos todas as mandalas e os painéis com desejos para o mundo e fizemos uma grande fogueira. Nada de deixar guardado os pedidos numa gaveta para comparar no início do ano que vem. Eles foram todos consumidos pelo fogo, enquanto todos nós assistíamos ao resplandecer daquela fogueira regida pela lua cheia.
Escrito por
Maíra
às
10h11
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