canto silencioso


País do jeitinho

No país do proveito, as pessoas querem sempre tirar vantagem umas das outras, aproveitar qualquer brecha. E para tanto, usam de má fé sem o menor pudor ou peso na consciência. Chame de ingenuidade ou o que quiser, o fato é que estou me sentindo completamente traída e lesada por um contrato de aluguel mal intencionado.

Desde que conheci o apartamento para o qual vou me mudar em breve, meti na cabeça que era lá que eu iria morar. Passei semanas rascunhando a planta do apartamento e levando-a comigo para todos os cantos, enquanto desenhava no papel e na minha tela mental como seria a minha casinha. A idéia de morar sozinha, que a princípio me deixou um pouco cabreira, ganhava um certo brilho. Eu moraria num apartamento legal, ainda que pequeno e modesto, um lugar muito bem localizado onde não me sentiria tão isolada. Com alguns reparos, poderia transformar aqueles cômodos mal tratados em um apartamento charmoso e aconchegante. Sim, era mais do que suficiente para mim. Sim, eu merecia esse pequeno salto, essa boa experiência. De repente eu me animava com a idéia dessa mudança. Enquanto não recebia resposta positiva dos proprietários – foram longos quase dois meses pra me aceitarem como inquilina – eu me possibilitava sonhar.

A sensação de que aquele lugar já me pertencia era grande e eu passei a acreditar que não encontraria nada melhor. Foi assim que diminuí o ritmo das visitas às kitchs do centro. Muitas eram assustadoras, claustrofóbicas. As que tinham formato mais interessante ficavam em localizações meio tenebrosas. As regiões mais bacanas, quando não eram mais caras, eram muito pequenas e impessoais. Aquela foi a única que me possibilitou de fato imaginar um ambiente gostoso para morar.

Eram quase quarenta metros quadrados do décimo andar de um prédio na Praça Roosevelt, com aquela vista ampla do alto. Totalmente sedutor.

É fato que não tenho experiência em negociar contratos e até agora a administradora que está cuidando disso conseguiu tirar bom proveito disso. Pedi para uma amiga advogada me ajudar a entender as cláusulas do contrato. Ela colocou milhões de questionamentos, falou para eu rever inúmeros pontos e tudo que recebi de resposta foi que nada seria mudado, que os termos do contrato eram de praxe e eu poderia aceitá-los ou não.

Eu tenho um lado bastante ansioso e faz tempo que sinto vontade de trabalhá-lo de alguma forma. Quero sempre resolver as coisas rápido, detesto ficar com decisões em suspenso, com indefinições sobre o futuro. E acho que na minha inexperiência, não tive o cuidado de exigir muito da administradora. Estava enfrentando problemas parecidos em outras esferas da minha vida e me sentia sufocada com tantas imprecisões. Eu queria mesmo era viabilizar minha mudança o quanto antes, mesmo porque eu tinha prazo para entregar o apartamento onde estava.

Aceitei reformar um apartamento que estava em condições deploráveis, porque desenhei nele a casa dos meus sonhos. Aceitei reformá-lo sem receber nada em troca, mesmo sabendo que o correto seria que os proprietários reconhecessem que todo o meu cuidado merecia algum retorno, nada mais justo que eu ter direito de abatimento do valor do aluguel ou não precisar pagar algumas parcelas.

E como toda obra, previ que gastaria tanto e estou gastando bem mais. E agora descobri que a parte hidráulica do imóvel está toda podre e necessita ser trocada e quem disse que querem me indenizar por essa reforma? Mesmo sendo uma benfeitoria necessária, eles estão se negando a bancar essa parte. E aí que mora a sacanagem. Mergulhei nos artigos da lei do inquilinato nesse fim-de-semana e depois de muitas leituras descobri as brechas. Eles não precisam me indenizar de nada, porque meteram no contrato uma cláusula que me responsabiliza por todas as obras do apartamento, salvo as que importem na segurança do prédio.

De modo que agora me sinto humilhada, porque fui eu que assinei o contrato, que aceitei as condições absurdas e sacanas que eles me impuseram. Me sinto revoltada porque nesse país do jeitinho, a corda sempre estoura pro lado de quem pode menos e de quem não conhece a lei. Me sinto ofendida porque nem a lei me protege nesse caso. Estou reformando o apartamento para torná-lo mais gostoso de morar e isso não é fundamental, eu sei bem. Mas é fato que o apartamento não terá o mesmo valor quando eu sair de lá. Valerá muito mais. E nada eu recebo em troca a não ser o prazer de usufruí-lo nos meses em que lá permanecer. Nem mesmo o direito de ter água corrente sem ter que bancar financeiramente por isso. Afinal, se eu quero ter água e luz, eu que cuide disso. Eles só estão me oferecendo a casca de um ovo, se estiver podre por dentro, problema meu, eu aceitei alugá-lo.

Tem dias que o mundo amanhece mais desanimador, porque vemos mais podridão nas pessoas do que nos canos deteriorados de um apartamento velho do centro da cidade.

Ah, sim, só um detalhe. O mais absurdo é que os donos do apartamento são padres. Sim, uma comunidade de padres. E não querem pagar IPTU porque se consideram uma comunidade filantrópica. Há-há. E brigam na justiça para provar isso. Mas isso é só um detalhe, isso é uma outra história.


 Escrito por Maíra às 22h39
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